segunda-feira, 22 de abril de 2019

Intertexto - Bertolt Brecht

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

domingo, 21 de abril de 2019

Toque Sutil
(Sociólogo de Botequim)

Em seu corpo meu toque sutil
Faz sua alma tremer
Sua pele sentindo o desejo no gosto do beijo que te faz gemer

Das pernas subo devagar
E vou te levando ao céu
Te sinto suando, querendo, em chamas ardendo implorando meu mel

No pescoço meus lábios repousam
Teu corpo a se contorcer
Teu cheiro em meu cheiro na dança que traz a esperança de não fenecer

Minha língua no ponto sagrado
Enfim gera uma explosão
Do gozo eu já sinto o gosto mas não deixo o posto até a sua exaustão

Então vejo o seu sorriso e é o que eu preciso pra compreender
Que suas pernas já não se aguentam e os lábios desejam me ter em você
Com a força que sobra te ergo, seguro te envergo, te lanço pro ar
E pra explodir de desejo te envolvo num beijo para em ti penetrar

sábado, 20 de abril de 2019

Sem lhe conhecer
Senti uma vontade louca de querer você
Nem sempre se entende as loucuras de uma paixão
Tem jeito não
Olha pra mim
Faz tempo que meu coração não bate assim
Não faz assim, me diz seu nome
Não me negue a vontade de sonhar
De sonhar os meus sonhos com você
Despertando pro seu adormecer
Seria bom demais
Que bem me faz, você.

terça-feira, 16 de abril de 2019

PARTE 2

O olhar parecia de uma santa,
mas o corpo se movia bestialmente
ela sabia o que queria
sabia o que fazia
Suas pernas se abriam
feito uma bailarina,
as mãos me tocavam
quase que a alma

Como pode tanto aos 20 e poucos anos?

O olhar parece inocente,
mas sua boca é tão libertina:
molhada, quente, sagaz,
desliza por todo o meu corpo,
sussurra de maneira depravada

– me come na mesa

Enfio minha cabeça
entre suas coxas carnudas,
chupo a sua flor
que parece uma brasa
quente e avermelhada
Enquanto isso,
ela recita palavras obscenas
me puxando para dentro de si
pelos cabelos
Debruço ela na mesa
e meto com vontade,
latejando brutalmente
até o nosso suor estampar
a marca do nosso pecado
por toda a madeira da mesa

O olhar parecia de uma aluna,
mas o seu corpo ensinou
mais do que eu poderia imaginar.

( Cleydson Ramones )

terça-feira, 9 de abril de 2019

20 DICAS PARA ESCREVER BEM:

1. Evite repetir a mesma palavra, porque essa palavra vai se tornar uma palavra repetitiva e, assim, a repetição da palavra fará com que a palavra repetida diminua o valor do texto em que a palavra se encontre repetida!

2. Fuja ao máx. da utiliz. de abrev., pq elas tb empobrecem qquer. txt ou  mensag. que vc. escrev.

3. Remember: Estrangeirismos never! Eles estão out! Já a palavra da língua portuguesa é very nice! Ok?

4. Você nunca deve estar usando o gerúndio! Porque, assim, vai estar deixando o texto desagradável para quem vai estar lendo o que você vai estar escrevendo. Por isso, deve estar prestando atenção, pois, caso contrário, quem vai estar recebendo a mensagem vai estar comentando que esse seu  jeito de estar redigindo vai estar irritando todas as pessoas que vão estar lendo!

5. Não apele pra gíria, mano, ainda que pareça tipo assim, legal, da hora, sacou? Então joia. Valeu!

6.  Abstraia-se, peremptoriamente, de grafar terminologias vernaculares classicizantes, pinçadas em alfarrábios de priscas eras e eivadas de preciosismos anacrônicos e esdrúxulos, inconciliáveis com o escopo colimado por qualquer escriba ou amanuense.

7. Jamais abuse de citações. Como alguém já disse: “Quem anda pela cabeça dos outros é piolho”. E “Todo aquele que cita os outros não tem ideias próprias”!

8. Lembre-se: o uso de parêntese (ainda que pareça ser necessário) prejudica a compreensão do texto (acaba truncando seu sentido) e (quase sempre) alonga desnecessariamente a frase.

9. Frases lacônicas, com apenas uma palavra? NUNCA!

10. Não use redundâncias, ou pleonasmos ou tautologias na redação. Isso significa que sua redação não precisa dizer a mesmíssima coisa de formas diferentes, ou seja, não deve repetir o mesmo argumento mais de uma vez. Isso que quer dizer, em outras palavras, que não se deve repetir a ideia que já foi transmitida anteriormente por palavras iguais, semelhantes ou equivalentes.

11.  A hortografia meresse muinta atensão! Preciza ser corrijida ezatamente para não firir a lingúa portuguêza!

12.  Não abuse das exclamações! Nunca!!! Jamais!!! Seu texto ficará intragável!!! Não se esqueça!!!

13.  Evitar-se-á sempre a mesóclise. Daqui para frente, pôr-se-á cada dia mais na memória: “Mesóclise: evitá-la-ei”! Exclui-la-ei! Abominá-la-ei!”

14.  Muita atenção para evitar a repetição de terminação que dê a sensação de poetização! Rima na prosa não se entrosa: é coisa desastrosa, além de horrorosa!

15.  Fuja de todas e quaisquer generalizações. Na totalidade dos casos, todas as pessoas que generalizam, sem absolutamente qualquer exceção, criam situações de confusão total e geral.

16.  A voz passiva deve ser evitada, para que a frase não seja passada de maneira não destacada junto ao público para o qual ela vai ser transmitida.

17.  Seja específico: deixe o assunto mais ou menos definido, quase sem dúvida e até onde for possível, com umas poucas oscilações de posicionamento.

18.  Como já repeti um milhão de vezes: evite o exagero. Ele prejudica a compreensão de todo o mundo!

19.  Por fim, Lembre-se sempre: nunca deixe frases incompletas. Elas sempre dão margem a

James Michener, escritor, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1948.

domingo, 7 de abril de 2019

OS FILHOS DO QUARTO!

NÃO DEIXE DE LER

Antes perdíamos filhos nos rios, nos matos, nos mares, hoje temos perdido eles dentro do quarto!

Quando brincavam nos quintais ouvíamos suas vozes, escutávamos suas fantasias e ao ouvi-los,
mesmo a distância, sabíamos o que se passava em suas mentes.

Quando entravam em casa não existia uma TV em cada quarto, nem dispositivos eletrônicos em suas mãos.

Hoje não escutamos suas vozes, não ouvimos seus pensamentos e fantasias, as crianças estão ali, dentro de seus quartos, e por isso pensamos estarem em segurança.
Quanta imaturidade a nossa.

Agora ficam com seus fones de ouvido, trancados em seus mundos, construindo seus saberes sem que saibamos o que é...

Perdem literalmente a vida, ainda vivos em corpos, mas mortos em seus relacionamentos com seus pais, fechados num mundo global de tanta informação e estímulos, de modismos passageiros, que em nada contribuem para formação de crianças seguras e fortes para tomarem decisões moralmente corretas e de acordo com seus valores familiares.

Dentro de seus quartos perdemos os filhos pois não sabem nem mais quem são ou o que pensam suas famílias, já estão mortos de sua identidade familiar...

Se tornam uma mistura de tudo aquilo pelo qual eles tem sido influenciados e pais nem sempre já sabem o que seus filhos são.

Você hoje pode ler esse texto e amar, mandar para os amigos.
Pode enxergar nele verdades e refletir. Tudo isso será excelente.

Mas como Psicopedagoga tenho visto tantas famílias doentes com filhos mortos dentro do quarto, então faço você um convite e, por favor aceite !

Convido você a tirar seu filho do quarto, do tablet, do celular, do computador, do fone de ouvido, convido você a comprar jogos de mesa, tabuleiros e ter filhos na sala, ao seu lado por no mínimo 2 dias estabelecidos na sua semana a noite (além do sábado e domingo).

E jogue, divirta-se com eles, escute as vozes, as falas, os pensamentos e tenha a grande oportunidades de tê-los vivos, "dando trabalho" e que eles aprendam a viver em família, se sintam pertencentes no lar para que não precisem se aventurar nessas brincadeiras malucas para se sentirem alguém ou terem um pouco de adrenalina que antes tinham com as brincadeiras no quintal !"

Cassiana Tardivo
Psicopedagoga

Excelente reflexão impossível não compartilhar!

sábado, 6 de abril de 2019

Sobre as voltas que o mundo dá até que uma pessoa receba um diagnóstico e, principalmente, se reconheça como alguém emocionalmente adoecido. Este é o fragmento de um registro em prontuário de um atendimento que fiz recentemente:

“S1- Paciente traz exames que pedi ontem após nossa primeira conversa. Conta que seu quadro inicial era de tosse e dispnéia. Isso ocorreu há 3 anos. Na ocasião, recebeu diagnóstico de asma. Começou a usar s*lb*t*m*l, e uma injeção com doses altas de corticoide mensalmente (😩😳)o que lhe trazia uma “melhora temporária”. Há 2 anos, sentiu uma dor em FIE (abdome inferior) em pontada e no Pronto-atendimento disseram que ela havia tido um "pré-infarto" (palavras da paciente). Há 1 ano e meio iniciou quadro de dor torácica. Era uma dor posterior com irradiação anterior em aperto, não associada ao esforço físico. Paciente nega associação desta dor com sudorese fria ou dispnéia (falta de ar). A dor durava em média 1 dia inteiro e "melhorava sozinha". Fez tomografia de tórax em 18/10/17 que não evidenciou anormalidades.Realizou Teste ergométrico em 06/12/2017 que não evidenciou alterações sugestivas de isquemia miocárdica induzida pelo esforço. (Significa dizer que o exame não mostrou nenhum problema com o coração). Após todos estes exames, ainda foram pedidos Ecocardiograma, Cintilografia miocárdica (repouso e stress), cateterismo. A paciente não fez pois não tinha mais dinheiro pra seguir investigando seus sintomas. Ao mesmo tempo que vivenciava todo esse adoecimento, passava também pelo fim do seu relacionamento. Um casamento de 20 anos, repleto de episódios de violência física. Paciente me mostra fotos de hematomas no rosto e no corpo que guarda no seu celular.”

Ao final da consulta, a paciente me confidenciou que durante os primeiros momentos deste seu adoecimento, o agora ex-marido disse que não queria uma mulher doente do seu lado. Isso me fez entender muita coisa. Foi em uma mulher doente exatamente no que ela se transformou, tamanho era o seu desgosto ao viver na prisão que se tornou sua própria casa.

Ao final da consulta eu decidi perguntar a ela por que, depois de tantos anos indo a tantos profissionais, ela decidiu voltar ao posto pra levar os exames que eu havia pedido.

Ela respondeu que as palavras que eu havia dito a ela no nosso primeiro encontro acenderam uma esperança de que ela pudesse enfim dar um nome aquilo que sentia. No dia anterior eu disse a ela assim:

“Querida, não há quem passe intacta, incólume, por um relacionamento violento que dura 20 anos. Você é jovem, aparentemente saudável, trabalha, cuida dos filhos. O nosso corpo e a nossa mente não são entes separados. São um todo. Único. A tristeza adoece o corpo. Preciso, sim, ver estes exames, mas preciso mais ainda saber do que te afeta. O que de fato está te adoecendo.”

Hoje ela voltou e me disse:

“Doutora, eu preciso de uma psicóloga. Eu quase não dormi essa noite por que ontem eu fiquei pensando em mim quando eu ainda era uma menina. Eu via o meu pai bater em minha mãe e isso doía no fundo da minha alma. Eu perdi as contas de quantas vezes eu repeti: nunca vou arrumar um marido assim pra mim. E, o que eu fiz?”

Ela se viu. Se enxergou de dentro pra fora. E eu aprendi com ela a ser uma médica melhor. Pra ela.

Enxergar o outro. Está é a minha profissão.

De fé.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Se vc chorar essa noite, me conte
Não os motivos
Não as lágrimas e suas infinitas gotas
Me conte se é isso que te faz estar vivo
Se isso te alivia no travesseiro
Se é o que vc imagina ou
Mais uma fantasia alucinante
...
E se eu chorar e só a lua
E não há com que se preocupar
Isso é bobagem minha

Numa entrevista concedida em 1994 a José Geraldo Couto, João Cabral de Melo Neto assim falou a respeito da noção de poesia:

“Naquele poema ‘Alguns Toureiros’ eu digo que aprendi com Manolete a não poetizar o poema. Porque esse é o problema de muito poeta: é que ele faz um poema poético. Quer dizer, faz um poema a partir de elementos já convencionalmente poéticos. Ele perfuma a flor. É como se você planta uma rosa e depois acha que a rosa não está cheirando o suficiente e aí põe, em cima da rosa, perfume de rosas para ela cheirar mais (risos). Eles perfumam o poema. Existem toureiros que fazem isso também, floreiam demais o jogo.”

Poetizar o poema significa encher o poema de emoticons, de pequenas sinalizações indicando ao leitor a reação emocional que o poeta espera provocar. Sinalizações que revelam a insegurança do poeta com relação aos meios que emprega.

Ele acha que o que escreveu não é suficiente, acha que o leitor não vai entender, e começa a reescrever aumentando, começa a encher o verso de pequenas redundâncias, como se cochichasse ao leitor, “olha só, isso aqui é triste”, “preste atenção, aqui é para você achar graça”, e assim por diante. Surgem redundâncias como “um sorriso alegre cheio de felicidade”.  (...)

Leia o resto clicando no link abaixo:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2015/06/3852-nao-poetize-o-poema-2862015.html
Numa entrevista concedida em 1994 a José Geraldo Couto, João Cabral de Melo Neto assim falou a respeito da noção de poesia:

“Naquele poema ‘Alguns Toureiros’ eu digo que aprendi com Manolete a não poetizar o poema. Porque esse é o problema de muito poeta: é que ele faz um poema poético. Quer dizer, faz um poema a partir de elementos já convencionalmente poéticos. Ele perfuma a flor. É como se você planta uma rosa e depois acha que a rosa não está cheirando o suficiente e aí põe, em cima da rosa, perfume de rosas para ela cheirar mais (risos). Eles perfumam o poema. Existem toureiros que fazem isso também, floreiam demais o jogo.”

Poetizar o poema significa encher o poema de emoticons, de pequenas sinalizações indicando ao leitor a reação emocional que o poeta espera provocar. Sinalizações que revelam a insegurança do poeta com relação aos meios que emprega.

Ele acha que o que escreveu não é suficiente, acha que o leitor não vai entender, e começa a reescrever aumentando, começa a encher o verso de pequenas redundâncias, como se cochichasse ao leitor, “olha só, isso aqui é triste”, “preste atenção, aqui é para você achar graça”, e assim por diante. Surgem redundâncias como “um sorriso alegre cheio de felicidade”.  (...)

Leia o resto clicando no link abaixo:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2015/06/3852-nao-poetize-o-poema-2862015.html

sexta-feira, 29 de março de 2019

CEDO OU TARDE EU IA TRADUZIR A ABERTURA DA ODISSEIA.

O homem conta-me, Musa, o multimodal que por muitos
males passou, arrasando a santa muralha de Troia,
vendo e sabendo de muitas cidades e mentes humanas,
muitas dores sofrendo no mar e dentro do peito,
ao proteger seu alento e o retorno de seus companheiros,
sem conseguir salvá-los, por mais que assim desejasse:
pois se perderam pela própria perversidade,
tão pueris que comeram o gado do Sol Hiperônio,
e este por isso então lhes tomou o dia da volta.
Deusa filha de Zeus, começa por um desses pontos.

 Ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ
πλάγχθη, ἐπεὶ Τροίης ἱερὸν πτολίεθρον ἔπερσε·
πολλῶν δ' ἀνθρώπων ἴδεν ἄστεα καὶ νόον ἔγνω,
πολλὰ δ' ὅ γ' ἐν πόντῳ πάθεν ἄλγεα ὃν κατὰ θυμόν,
ἀρνύμενος ἥν τε ψυχὴν καὶ νόστον ἑταίρων.
ἀλλ' οὐδ' ὧς ἑτάρους ἐρρύσατο, ἱέμενός περ·
αὐτῶν γὰρ σφετέρῃσιν ἀτασθαλίῃσιν ὄλοντο,
νήπιοι, οἳ κατὰ βοῦς Ὑπερίονος Ἠελίοιο
ἤσθιον· αὐτὰρ ὁ τοῖσιν ἀφείλετο νόστιμον ἦμαρ.
τῶν ἁμόθεν γε, θεά, θύγατερ Διός, εἰπὲ καὶ ἡμῖν.


Tradução de um trecho da ODISSEIA por professor Guilherme Gontijo Flores 😱😱😱😱😍😍😍💙💜💙💜💖💖💖

quarta-feira, 27 de março de 2019

Um dia eu peguei o que eu não tinha e parti. Ir embora sem nada é mais fácil porque é só seguir. Estou em frente não porque deixei, larguei, abandonei ou sai. Não. Eu desanimei, desistir assim é só colocar um pé na frente e o outro logo depois...
Eu não quero voltar para onde estive. Não quero mais continuar à deriva no mar da vida, um oceano para mergulhar...e eu estava olhando os peixes sequinha. Agora eu vou pular. Quero sentir o mar aberto fazer meus olhos lacrimajarem de verdade. Chorei olhando os peixes de um aquário, podendo nadar com as vidas marinhas mais loucas sem nem saber aonde iremos chegar. Mas vamos juntos, eu e esses seres todos de dentro do meu universo.
Aos que estão no lugar de onde eu segui, deixo a amizade de portas, janelas e braços abertos. Eu sei que ser amor é aprender antes de tudo compartilhar. E vamos partilhar novas histórias, novidades e os amores que se aproximaram de nossas longas conversas agora em horas marcadas. O relógio é um aliado de pessoas descontroladas e controvérsias como eu sou. E vai me dizer o que fazer na hora certa da chegada e da revoada.
Hoje é um dia de fazer a vida valer a pena.
Sou, desde garoto, um sujeito lento. Rápido no pensar, lá isso eu sou, mas muito lento no agir. Quem gosta de mim diz, com benevolência, que eu tenho um tempo próprio de fazeção das coisas. Deve que tenho mesmo. Pelo sim, pelo não, adotei como um dos meus lemas o mineiríssimo "Festina lente" ("Apressa-te lentamente") dos latinos, que me permite viver sem culpa uma vida em que lavar e pôr para secar a roupa, observar o movimento dos calangos no quintal ou o voo das andorinhas sobre a minha morada são etapas do dia tão importantes quanto escrever mais algumas páginas do livro de memórias ou terminar de preparar a oficina que oferecerei neste fim de semana em São Paulo. Junto à lentidão (talvez a marca maior do meu temperamento pessoal) a opção pela frugalidade. Fazer do pouco algo que perdure, quem sabe alguma alegria para sempre: isto é, sim, comigo. Sem pressa nenhuma. Porque, além de já ser lento de nascença, aprendi a valorizar ainda mais a lentidão desde que li pela primeira vez, logo que foi publicado, este primoroso ensaio do geógrafo-pensador Milton Santos que volta e meia eu reposto aqui. "Vos desejo uma excelente viagem" - faço minhas as palavras grafadas por Bispo do Rosário num estandarte - pelo texto do professor Santos. Terei muito gosto em saber, à noite, se quiserem me contar, que o dia de hoje foi para vocês agradavelmente lento.

terça-feira, 26 de março de 2019

Texto lindo... página do Facebook "Ventre feminista"

Tem um texto de uma escritora portuguesa chamada Matilde Campilho que começa assim :
 "Escute só, isto é muito sério.
Anda, escuta que isso é sério!
O mundo está tremendamente esquisito"

Sim Matilde, o mundo está tremendamente esquisito. Não há como discordar.
E o desamor anda solto. Parece até cafona gostar dos outros.
O caso é que sou cafona e gosto dos outros. E meu jeito mais sincero de demonstrar amor é através do cuidado.
Meu pai não está muito bem nos últimos tempos. Claro que isso me abala. Ele é idoso, está com a saúde frágil. Até poucos dias eu levava almoço pra ele. Agora levo almoço e janta. Ele precisa comer direitinho. E me deixa feliz poder fazer isso por ele. Alimentar alguém, pra mim, é uma forma de ofertar vida, sabe?
Hoje um dos meus cachorrinhos começou a gritar de dor. A unha da patinha tinha quebrado e entrado na carne dele. Uma dor imensa, imagino. Chamei a veterinária, ela veio e ele está bem agora. Cuidar dele e vê-lo bem me alivia o peito.
Agora há pouco eu estava na cozinha fazendo comida (sim, de novo) para meu filho que vai chegar do estágio. Ele poderia fazer a própria comida? Claro que poderia e faz na maioria das vezes. Mas eu gosto de cozinhar pra ele e ouvir ele dizer "tava uma delícia mãe! Obrigado!"
Faço porque gosto, de verdade.
Sim, o mundo está tremendamente esquisito. E a gente vai deixando de cuidar da gente, de cuidar de quem a gente ama e de aprender a receber cuidado também quando precisamos. Às vezes ninguém oferece cuidado. Eu sei. Não vivencio atualmente, mas sei porque já vivenciei.
Tô falando de cuidado aqui e sei que pode surgir alguém para levantar a lebre de " cuidar dos outros é um papel social das mulheres imposto pela sociedade patriarcal" Concordo. É sim, e eu sei que é. Mas eu GOSTO de cuidar das pessoas (já disse isso?)
Eu gosto de sentar aqui quando posso e ler os relatos de vocês. Eu gosto de poder oferecer uma palavra de conforto quando há palavras que confortam. Eu gosto de cozinhar para meu filho, para minha família, para meus amigos. Eu gosto de ouvir os problemas das minhas amigas e procurar, junto com elas, as soluções. Eu gosto de dar lembrancinhas pra quem eu amo. Eu gosto. Eu gosto de gente. Gosto de bicho. Gosto de existir e sou grata pela honra de poder ofertar um pouco de acolhimento e afeto num mundo tão, tão tremendamente esquisito.
E como diz um outro trecho do texto/poema de Matilde Campilho :
" eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voo para nossa persistência no amor."
Eu acho que cuidar (e receber cuidado) é uma forma bonita de persistir no amor.
Cuidem de vocês, como se vocês valessem ouro (na verdade vocês valem MESMO!) E se puderem e quiserem, cuidem, na medida do possível, de quem vocês amam. Seja bicho ou gente.
O mundo tá ruim, esquisito, doido e doído. Mas a gente pode e deve persistir no amor.
SUGESTÕES DE LEITURA, ENQUANTO ELES COMEMORAM O ANIVERSÁRIO DO INFAME GOLPE DE 1964:

A expedição Montaigne (1982), de Antonio Callado
A festa (1976), de Ivan Ângelo
Ainda estou aqui (2015), de Marcelo Rubens Paiva.
Amores exilados (1997), de Godofredo de Oliveira Neto
A noite da espera (2017), de Milton Hatoum
Antes do passado: o silêncio que vem do Araguaia (2012), de Liniane Haag Brum
A resistência (2015), de Julián Fuks
As meninas (1973), de Lygia Fagundes Telles
Avalovara (1973), de Osman Lins
A voz submersa (1984), de Salim Miguel
Azul corvo (2010), de Adriana Lisboa
Bar Don Juan (1971), de Antonio Callado
Cabo de guerra (2016), de Ivone Benedetti
Em câmara lenta (1977), de Renato Tapajós
Em liberdade (1981), de Silviano Santiago
Feliz ano velho (1982), de Marcelo Rubens Paiva
Felizes poucos (2016), de Maria José Silveira
História natural da ditadura (2006), de Teixeira Coelho
Incidente em Antares (1971), de Érico Veríssimo
K.: relato de uma busca (2011), de Bernardo Kucisnki
Lobos (1997), de Rubem Mauro Machado
Mulheres que mordem (2015), de Beatriz Leal
Não falei (2004), de Beatriz Bracher
Não verás país nenhum (1981), de Ignacio Loyola de Brandão
Nem tudo é silêncio (2010), de Sônia Regina Bischain
Nos idos de março (2014), org. de Luiz Ruffato
O indizível sentido do amor (2017), de Rosângela Vieira Rocha
O fantasma de Buñuel (2004), de Maria José Silveira
O que é isso companheiro? (1979), de Fernando Gabeira
O torturador em romaria (1986), de Heloneida Studart
Os carbonários (1980), de Alfredo Sirkis
Os pecados da tribo (1976), de José J. Veiga
Os que bebem como os cães (1975), de Assis Brasil
Os tambores silenciosos (1977), de Josué Guimarães
Os visitantes (2016), de Bernardo Kucinski
Outros cantos (2016), de Maria Valéria Rezende
Palavras cruzadas (2015), de Guiomar de Grammont
Paris – Rio – Paris (2017), de Luciana Hidalgo
Poemas do povo da noite (2017), de Pedro Tierra
Primeiro de abril (1994), de Salim Miguel
Quarup (1967), de Antonio Callado
Reflexos do baile (1977), de Antonio Callado
Retrato calado (1988), de Luiz Roberto Salinas Fortes
Silêncio na cidade (2017), de Roberto Seabra
Sombras de reis barbudos (1972), de José J. Veiga
Um romance de geração (1980), de Sérgio Sant’Anna
Volto semana que vem (2015), de Maria Pilla
Zero (1975), de Ignacio Loyola de Brandão

segunda-feira, 25 de março de 2019

Ela me surta

Não quero ser sua ex
É um preço alto demais
Apagar seus eles
do meu ouvido
Eu não aceito
Eu não me permito
Nao quero ser sua ex
Tenho duas escolhas
Duas estradas avessas
Não ser seu lamento ou
Ser sua o resto da vida
Não quero entrar na sua lista
No seu caderninho de ex
Escrito na sua memória reprimida
Tenho outros planos pra nós
Escolha se eu serei sua
Ou se serei uma webamiga
Não quero ser sua ex
Andar de mãos dadas
Pra toda vida
Ou nunca sentir o calor
Das suas mãos nas minhas ânsias
A minha insônia tem seu nome
No meu nick do chat
No meu link do WhatsApp
E se você me surta
O meu suéter
É teu abraço à noite
Quando o sono me vence
Depois de muita luta
Me diz que eu nao vou ser sua ex
E nem mais uma garota chata
Que fica "dodói" e sem graça
Com o nome da Lila toda hora
E da Lili dizendo que é
Uma super heroína da sua vida
Eu não quero ser mais uma ex sua
Me deixa fazer parte da sua eternidade
Ou me deixe fazer amor com você
Numa tarde, sem saber seu gemido
Sem saber se seu sorriso
Foi eu quem fez...
Eu não quero ser sua próxima ex
Me dá uma chance de dizer
Isso outra vez...

sábado, 23 de março de 2019

Doutora Júlia Rocha direto do Facebook

O MEU CORPO PADRÃO

Minha aparência me agrada, mas não foi sempre assim. Dois anos já se passaram desde o meu parto e nesse caminho eu já achei que minha vida havia sido estragada pela gravidez. Já tive raiva, vergonha e muita insegurança. Eu não sei o que me fez mudar. Talvez tenha sido um tanto de feminismo com mais um tanto de amor próprio conseguido a duras penas em frente ao espelho.

Hoje eu consigo admirar coisas que já odiei. Manchas de sol na pele do rosto, manchas de espinhas, olheiras,rugas. A pele que começou a aceitar o tempo. Dentes nem tão brancos, lábios grandes e grossos, nariz largo. Orelhas pequenas, testa grande. Cabelo entre o crespo e o cacheado, alguns fios quebrados, outros tantos fios bem lindos.

Meu corpo cumpre sua função de me levar ao encontro das pessoas que amo e me dar prazer. Prazer sexual, prazer no trabalho, prazer no convívio, prazer de comer, de cantar, de ser.

Peitos que amamentam não são duros nem empinados e, mesmo assim, eu os amo. Amo o prazer que me proporcionam no sexo, na amamentação e ao contemplá-los diante do espelho.

A barriga tem mais pele que antes e essa pele tem as marcas de um dos momentos mais doces e deliciosos que minhas lembranças guardam. A espera por minha filha. As estrias, a flacidez, o umbigo que ficou diferente. Tenho amor, respeito e gratidão especiais por minha barriga.

Minhas coxas não estão mais duras. Pretendo fortalecê-las em busca de mais saúde para os meus joelhos. Minhas pernas me levam e eu as agradeço diariamente por suportarem meu desejo intenso de experimentar o mundo.

Não há quem me convença a me anestesiar e me submeter a uma cirurgia para consertar o que está perfeito. Meu corpo está perfeito e nele eu carrego a minha história.

Cremes caros, tratamentos doloridos... desculpem, tenho preguiça. (Mas maquiagem eu adoro!)

Eu me sinto triste às vezes. Em alguns momentos, me sinto terrivelmente triste. Chega a doer. Vez ou outra me sinto absurdamente feliz e eufórica. Na maior parte do tempo, estou bem. Sinto-me serena, tranquila.

Não preciso medicar minhas tristezas. Elas fazem parte de mim. É também por elas que eu me amo e que outras pessoas me amam. Não quero normalizar meus sentimentos. Quero ser eu e poder sentí-los todos.

Há um enorme mercado a vender normalidade. Sem crítica, acabamos aniquilando as nossas características mais únicas e especiais para entrarmos dentro de um padrão. O peito duro e empinado, a barriga reta e sem gordura, a vulva de tal jeito, a pele, o cabelo, os pelos, as unhas, o humor, o sono, o tamanho do pênis, a grossura dos lábios... não tem fim.

Aliás, tem. O ponto final, eu coloquei. Hoje me sinto bem como sou, tranquila com a minha aparência, com meus desejos e amores. Um dia nos disseram que precisávamos refazer nosso corpo. Consertá-lo! Caso contrário, o marido iria embora! Um dia nos disseram que ele olharia para a outra mulher mais jovem na rua. E nós acreditamos! Eu mesma acreditei até ver casais se desfazendo e maridos indo embora depois da abdominoplastia e da mamoplastia que deixaram o peito empinado, a barriga reta e o corpo “correto” denovo.

Minhas descobertas se tornaram doces quando eu descobri que meu corpo despertava desejo e amor e encantamento mesmo flácido, marcado e “errado”. O medo da dor de transar depois do parto foi substituído por deliciosas experiências regadas de zelo, afeto e desejo!

Hoje eu sei e sinto que o meu corpo só deve e precisa servir a mim. Quem quiser ir embora que vá. Eu fico. Inteira. Eu não me abandono nunca mais. ❤️

terça-feira, 19 de março de 2019

Para mim, existe uma lógica de consumo na educação "bancária", como já definia Paulo Freire. Ela submete o fazer escolar ao clientelismo de satisfazer aos pais e aos alunos, o que de fato é uma inversão de valores em relação à escolarização adequada e digna. Em favor dessa clientelização, há realmente algumas tendências de escolas que "prometem" criar os filhos para os pais, que "prometem" satisfazer a fome e a sede dos alunos por sucesso e realização pessoal, que "prometem" através de profissionais multiespecializados ( "psicólogos coaching", neuropsicopedagogo em constelação familiar, etc) cuidar da saúde emocional dos filhos desses país que terceirizam a responsabilidade familiar para as escolas. Isso é realmente preocupante pelo absurdo que se promove e que possui rastros em outras práticas, por exemplo, o ensino integral no qual a escola coloca os professores para ficarem com os alunos 40hrs por semana (sendo escola integral em horário para o professor e para o aluno), a fim de retirar esses alunos das ruas, do assédio à violência do entorno de suas casas e comunidades - o que também é um absurdo. Veja que não há nessas escolas chamadas "integrais" o objetivo de compor um currículo transversal, com estímulo às artes, ao esporte e ao desenvolvimento tecnológico, por exemplo. O que há é a ocupação do tempo de professores e de seus alunos com mais aulas, mais horários de conteúdo (seja teoria e exercício) e não uma busca pela integralidade humana. O integral humano não é formado, trabalhado, explorado e pensado. É apenas uma terceirização da responsabilidade familiar ao que a escola bancária sempre se prestou, ser uma prestadora de serviço (do serviço que está sendo superficialmente demandado pelo mercado). Eu acredito que repensar o propósito da escolarização é a melhor maneira de avançar enquanto humanidade.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Psiu, gostosa
Vem aqui
Ô linda
Foge não
Vadia
Nojenta
Vagabunda
Piranha
Bruxa
Lixo

Ô mocinha
Toma um banho
Limpa teu sangue
Eu prefiro limpa, assim
Limpa esse chão
Limpa essa louça aqui
Quero teu corpo limpo

Ô querida
Tão nervosa
Não precisa
É louca
É neurótica
Fica quietinha
Fecha a perninha
Sente como menininha

É tão frágil
É cristal
Mimo meu
Na minha estante
Calada
Muda
Silenciada

Ei, mulher
Eu tenho uma flor
Feliz dia
Sorria
Eu salvei o dia

Toma, boneca
Uma promoção de perfume
Maquiagem mais em conta
Lingerie na promoção
É teu dia, bonita!

Tá com frescura, gatinha?
Volta aqui
Vamos conversar
Eu não queria ter de te machucar
Vai dar jogo pro azar?
Bruxa
Vagabunda
Filha da puta

Eita, coitadinha
Tão novinha
Quis dar
Não soube se cuidar
Agora nada de abortar
Engula essa tua culpa
Mamãe
Trancada
Forçada
Quem mandou?

Ah, mas isso é fase
Hoje não quer ser mãe
Quando encontrar homem bom
Espera só, querida
Toda mulher nasce pra isso
É vocação
Questão de tempo
Espera só
Só

Dupla jornada
Balela de louca
Eu sou um fofo
Estou aqui com sua pensão
Sua vocação
Não minha

Olha, putinha
Quer abortar?
Teu nome tá em sangue
Lá no chão da favela
1 milhão por ano
Clandestinas
É Gabriela?
Cravo ou Canela?
Não tem chá
Não tem pai
Não tem saúde
Não tem
Não

Não pode descuidar
Tem que tomar
A pílula
Engula
Um pouquinho a cada dia
Trombofílica
Hipertensa
Cancerígena
Mas descuidar não pode
Pode suas asas

Olha ali, tá gordinha
Desleixou
Tá descuidada
Desse jeito acaba sozinha
Mas tem rosto tão bonito
Não se cuida
Questão de saúde, sabe?
Me preocupo
Juro que não é padrão

Filme de terror
É rua escura
Passo próximo
Respiração ritmada
Pensou era demônio
Era homem
Ali
Sozinha
Suja
Pintando a sarjeta de sangue
Por hora são onze

Vocês querem falar sobre flores? Eu não quero nem vê-las. A bizarrice poética desse dia é fruto da dor das nossas mulheres: estupradas, silenciadas, subestimadas, impedidas, mutiladas, espancadas, violentadas, exploradas, forçadas.
Todos. Os. Dias.

8 de março é dia de luta.

Texto: Luiza passarin

domingo, 3 de março de 2019

Nenhuma pressa

Nem me alcança esse ritmo da vida
Esse imediatismo sem jeito
Essa falta de tudo
Que nada basta e nunca ta satisfeito
Eu não quero apressar nada
Nem me perdoaria que o adeus fosse antes da hora
Um dia tudo acaba
E com vc eu quero experimentar o eterno
Um infinito de tempo
Que não tem nome
Não vou correr com o relógio
Ter você é um presente
Sem mesmo você imaginar
Que eu já te tenho nas minhas horas
Nas minhas ansias de amar
Nos sonhos de acalanto
E eu em seus furtivos pesadelos
Então, o tempo e a hora vão precisar dizer
O que for preciso vai acontecer
Nao será de outra maneira
Que seja sem pressa
Essa é a minha prece
De tanto te amar