Se eu mergulho em mim, derramo amor...prazer... ódio... rupturas. Se eu te mergulho, deságuo em fúrias...feras...feridas...e amar. É sobre o encontro de mágoas às vezes, mas em um vigoroso oceano há sempre vida!
segunda-feira, 21 de junho de 2021
Se ele comprou de quem roubou, o dinheiro dele tem que ser devolvido. Se há a acusação de possível "receptação", comprovar que ele se beneficiou é antes de tudo tarefa de quem acusa. Suspeitar antes de tudo de que o bem dele é proveniente de um "furto" está claramente baseado no racismo estrutural que logo "suspeita" por causa, sabemos eu, você e muitos mais, exclusivamente da sua etnia. Ele está CLARAMENTE RACIALIZADO. O debate não pode ser "o que é certo é certo", e eu não preciso dar aula sobre racismo para ninguém, quem nasce no Brasil sabe de racismo sim, embora haja quem se faça de desentendido quando convém. Antes dele passar por esse processo de INVESTIGAÇÃO a sentença PARA ELE me parece está GARANTIDA. MAS o que me indigna é POR QUE O CASAL RACISTA está impune? Por que não se faz uma MOBILIZAÇÃO A FIM DE GARANTIR o que quer que seja de DIREITO E DIGNIDADE ao Matheus, ele é um jovem negro brasileiro e deveria TER TODO O DIREITO DE TER seus bens. Ele pagou por um OBJETO que "supostamente" foi furtado...mas eu me pergunto, eu te pergunto, eu pergunto para todos nós: QUEM VAI DEVOLVER PARA ELE O VALOR DELE antes de ter, na minha opinião, o valor da bicicleta (supostamente furtada) TAMBÉM RESSARCIDO. Não é direito de consumidor aqui, não. É valor humano, INESTIMÁVEL. RACISMO é um CRIME que está se institucionalizando nesse caso. Não pense que eu quero que ele fique com essa merda de bicicleta dos infernos. Isso não! Eu quero ele NO TOPO, irmão. No topo! Se ele vai ser JULGADO com todas as pompas RACISTAS porque comprou a bicicleta "a baixo do custo", porque não tem a NOTA FISCAL...se vierem na MINHA CASA não tem UMA NOTA FISCAL, meus cachorros COMEM. MAAAAAAAS eu sou branca. Minha BRANQUITUDE passa igual merda pelo ralo que é esse país, privada .... E eu sinceramente espero que NUMA VAQUINHA VIRTUAL ele ganhe uma LOJA lotada de bicicletas PRA BRANCO MERDA ir lá comprar... Insulto pra mim é essa acusação de "receptação" vir bem na hora que o branquinho loirinho do surf TÁ SOLTO...mas o Matheus ACUSADO POR RACISTAS de ladrão ter que SER ACUSADO porque aqui não tem direito nem da sua humanidade validada.
O que eu acho PATRIARCAL em alguns discursos de alguns feminismos (radfem aproximado de libfem, por exemplo) é que não se discute de fato a VIOLÊNCIA de gênero produzida como um esmagador onipotente da humanidade de pessoas. Se fala em superiores (opressores) e inferiores, que muitas vezes parecem tomar para si uma "vontade", ainda que inconsciente ou menos velada, de OPRIMIR. Em outras palavras, é o que Freire já traduzia na expressão "pedagogia do oprimido", isto é, a cultura ensinada (transmitida) do opressor, como um vitorioso, e do oprimido, como um perdedor. Mas, gente, PERDEDOR DE QUÊ? GANHADOR DE QUÊ? Pensemos bem... Quem ganha MASSACRA, VIOLENTA, OPRIME, ESMAGA E DESUMANIZA e quem perde sai soterrado, silenciado, apagado, invisibilizado e desumanizado. Eu canso, sabe. Canso. Tô exausta. Pouquíssimos são os discursos de feminismo na internet que realmente eu compartilho, ou que me trazem aprendizado. Infelizmente. A esmagadora, literalmente, maioria, de fato me esmaga, me causa sofrimento psíquico, só repete opressão. Tão feminista que FALA O DIA TODO DE MACHO, nessa buceta! Tem feminista que RIVALIZA toda hora com a mana. Tem feminista que na hora de LER e ESCUTAR a dor real (crua) de outras mulheres DEBOCHA na postagem com comentário. E eu me coloco na posição de chamar para algumas leituras ATRAVESSADORAS de feminismos para além da bolha, especialmente branca, de classe média alta, centro-sulista, DESPREPARADA, OPRESSORA e (mesmo com oportunidade) LEITORA DE TRECHOS e não de LIVROS inteiramente, sem pular NENHUMA PÁGINA. Uma leitura honesta, de quem não sabe MESMO, não vai ter nenhum certificado MAS SE VÊ enlouquecer ou morrer devagarinho perdendo sangue a conta gotas. Existe alguns discursos que ABUSAM do termo feminista por sadismo, perversidade e OPRESSÃO.
sexta-feira, 18 de junho de 2021
que merda
"empregada do marido" é um termo já do senso comum e realmente não reflete a luta por conscientização política sobre a exploração do trabalho doméstico e da reprodução (gestação) compulsória - que são duas importantíssimas condições de controle e ESCRAVIZAÇÃO dos corpos de mulheres e que sustenta a base do capitalismo (por exemplo, segundo Silvia Federici). Não é exatamente sobre o termo, mas sobre a limitação da própria situação... Ser "empregada do marido" é uma forma restrita de expressar o fato de que a família patriarcal, a casa e a sociedade exercem uma exploração a partir da restrição radical da dinâmica pública de uma mulher, apenas por ela ter nascido mulher - o que é uma VIOLÊNCIA de gênero (violência no sentido de produção de meios e fins AGRESSORES, ABUSIVOS, ESCRAVIZADORES e CONTROLADORES). Violência significa PRODUÇÃO DE SOFRIMENTO. Infelizmente, existe uma banalização do significado de VIOLÊNCIA que é por si chocante, e denuncia DESPREZO, DESUMANIZAÇÃO e descaso com quem sofre - talvez sejam as veias fascistas correndo em corpos que não têm como entender sua própria alienação ou agenciamento ao sistema que lhe violenta.
sobre o impedimento cultural liberal para o feminismo como ética
No meio do feminismo tinha uma pedra...
Tinha uma heteronormatividade "sutil" liberalzinha no meio do feminismo
terça-feira, 15 de junho de 2021
consumismo no afeto ou consumo de afeto
Liberalismo sexual é consumismo afetivo, isto é, exploração compulsória do afeto de modo a escravizar corpo e mentalidade de quem está alienado pela heteronormatividade COMPULSÓRIA. Não importa a forma da relação, seja ela homoafetiva, heteroafetiva, poliamor, relação aberta, monogâmica, polígama, extraoficial... Não importa, a heteronormatividade é uma maneira de se conceber, de se vivenciar, de se estruturar relações interpessoais sexuais ou afetivas... É a dominação do outro (consciente ou inconsciente), é a exploração do afeto e do corpo do outro (financeira, sexual ou por meio do trabalho doméstico ou não). A heteronormatividade reflete o pensamento de ativo x passivo que é manutenção de privilégios e obrigações realmente violentadoras. Uma mulher, por exemplo, que trabalha mas faz todo o trabalho (indireto) para seu "companheiro" enquanto ele cresce, aparece, ganha visibilidade e notoriedade profissional está presumidamente em uma relação que se confunde entre o afetivo e o laboral...deixando visível os "enlaces", os "elos", os contratos sociais comuns ao patriarcado ... Explicar esse tipo de coisa é constrangedor, porque somos obrigadas a ver "ROMANTIZAÇÃO" como "idealismo", "sonho bobo", quando de fato É VIOLÊNCIA. MAS ainda não estamos de fato preparadas para essa conversa franca
romantização é o CARALHO
E tem bobo que acha que "ROMANTIZAÇÃO do amor" é "monogamia". Sinceramente, eu sou ZERO paciência para explicar, justificar, me humilhar até pras manas (especialmente as héteras, mas não só elas) que ROMANTIZAÇÃO [nesse c@r&lh#! 🤬🤬😡😡😡 É VIOLÊNCIA e sofrimento IGNORADOS na relação "afetiva-sexual" em que, especialmente na HETEROSSEXUALIDADE, as mulheres "pensam" que estão "ganhando" algo mas de fato o que se parece com algum "privilégio" é migalha e exploração - geralmente, sexual, emocional, psicológica, física (no trabalho doméstico compulsório, por exemplo), moral e estrutural. Romantizar NÃO É ACREDITAR EM AMOR, não é se apaixonar, não é transar (fazer amor?) ou querer um relacionamento ""”"fechado""""". Poligamia não é liberdade sexual de mulher. Relacionamento aberto NÃO É MODERNIDADE só por ser. Que coisa chata demais ter que dizer o óbvio até para as manas do rolê que militam. C@r&lh*!!!! Quando a gente vai aprender que "meu corpo, minhas regras" NÃO É SOBRE mulher livre, mas sobre PARAR DE MORRER, sobre o trabalho doméstico compulsório e escravizador ser REPENSADO, sobre os corpos das mulheres não serem ALIENADOS pelo patriarcado a servir à sexualidade DE QUALQUER OUTRO , seja homem, mulher, ET, planta, etc. Cansada! Essa mana da publicação que você compartilhou É A PROVA que falta MUUUUUUUUUUUUITO para o feminismo em sua ética LUTAR (fora do liberalismo, individualista, consumista, alienado) por mulheres em sua DIGNIDADE. Como grita, implora e escancara FEDERICI, em "Calibã e a bruxa", NÃO foi antigamente que fomos queimadas, sequestradas, estupradas e DESUMANIZADAS. Esse é o modus operandi do capitalismo DESDE SEMPRE. É preciso olhar pela REALIDADE COLETIVA das mulheres urgentemente. Eu não posso me sentir "a livre" se ainda há ESCRAVIZAÇÃO, EXPLORAÇÃO E MORTE do meu lado nessa merda. (Desculpa o desabafo)
A "outra"
Segundo Gerda Lerner, no livro "A criação do patriarcado" (obra de 1979- traduzido para o português só em 2019), as concubinas (segundas esposas ou as "outras" e hoje em dia substituídas pelas "amantes") sempre foram uma classe ainda mais SUBALTERNIZADA, ainda mais ESCRAVIZADA, ainda mais EXPLORADA SEXUAL e com o trabalho DOMÉSTICO, além de serem ESCORRAÇADAS pelo próprio patriarcado (em mentalidades de mulheres e homens) que usam do privilégio heteronormativo PARA ESMAGAR a humanidade, portanto, desumanizando-as. Por isso, que não se trata, de modo mais analítico histórico, de uma "opção" ou de uma "escolha", mesmo porque se assemelha demais com a origem e com a permanência do sistema de prostituição (ainda que seja uma "outra família"). É de fato UMA VIOLÊNCIA simbólica, psicológico, verbal, moral, quando não FÍSICA e , inegavelmente, INTERROMPE a própria existência/vivência até subjetiva dessa mulher alienada pelo patriarcado em forma de heterossexualidade romantizada e, por isso, compulsória. Precisamos ainda saber que não há por que para rivalizarmos, disputamos ou competimos por esse "alecrim dourado" de pênis entre as pernas - posto que a mais do que isso, só a VIOLÊNCIA ele terá como herança. Não há dinheiro ou "suposto" amor (heterossexualidade compulsória e alienada) que valha a pena.
segunda-feira, 14 de junho de 2021
Por que Bolsonaro não usa máscara?
Por Roberto DaMatta
09/06/2021
Fiz a pergunta a muitas pessoas de ambos os polos e a uma minoria centrista que procurei como um detetive. Todos se assombraram com minha inocência. Como é que eu — professor titular de Antropologia Social e pesquisador da “alma brasileira” — não sabia que, entre nós, quem manda não obedece?
Como é que eu podia ignorar que, no Brasil, mandar anula o obedecer, essa desagradável anormalidade democrática que inverte a velha ordem? Como é que eu esquecia que “estar no poder” é sinônimo de não seguir coisa alguma, porque obedecer é o carimbo dos fracos e dos pobres?
É claro que Bolsonaro não usa máscara!
Como é que ele aceitaria tal banalidade, se o sinal que envia é que pode tudo? No Brasil, ser superior é não estar com a lei, mas situar-se acima dela, é claro.
É ter o privilégio de não ser cidadão. De provocar e abusar, na certeza de não ser punido. É ser “impunível” e, se preso for, ter a plena confiança de que um jurisconsulto ponderado vai livrá-lo da prisão, que será especial — um xadrez hierárquico e diferenciado...
Ninguém definiu tais condições com mais clareza que o próprio Bolsonaro quando, em 12 de maio do corrente, numa de suas tiradas absolutistas, declarou que “só Deus me tira daqui” e, no dia 17, afirmou ser “imorrível, imbrochável e também incomível”. O incomível é curioso. Ele salienta a qualidade bolsonaresca de ser duro de roer, mas deixa de lado outras implicações que Freud explica, e eu prefiro não comentar...
A arrogância expõe as propriedades conhecidas, mas pouco discutidas, de todos os que “sobem”, “chegam” ou “tomam” o poder no Brasil.
Aqui (como na América Latina), ser irremovível ainda é o sonho de quem encabeça um sistema que transforma eleições em rituais dinásticos, ministros em fidalgos ou criados e o eleito, em salvador (ou matador) da pátria. O populismo é o modelo resistente à igualdade do presidente perante a lei.
Aprendemos que o dono da bola pode mudar as regras do jogo e, sendo contrariado, ele acaba com o jogo.
O “golpe” é uma possibilidade constante em países onde verdade e mentira se contestam. É preciso perceber que crimes políticos hediondos, como “o rouba, mas faz”, ainda são vistos como piadas e folclore.
O que mostra como evitamos examinar o protagonismo dos costumes sobre as instituições. Aquilo que é positivo na família, e até mesmo no partido, contraria a ética democrática.
É preciso compreender como a ambiguidade ética corrói a impessoalidade obrigatória das democracias, cuja disciplina se baseia na separação de pessoas e cargos. O atualíssimo e atrasado “manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um mote escravocrata. É uma prova da desigualdade como valor no Brasil.
A decepção bolsonarista tem tudo a ver com a incapacidade de negar o pedido de um amigo e de ver essa incapacidade como normal. Como se lei, civilização, costumes e comportamentos fossem seres de planetas diferentes, quando são dimensões necessariamente relacionadas nos regimes democráticos.
Caso a “casa” continue a englobar a política e a “rua”; caso os elos pessoais sejam mais valorizados que a moralidade coletiva, temos incesto. O que iguala estruturalmente incesto e “corrupção” é romper com uma norma pública universal em favor de desejos particulares. Pois, como adverte sabiamente a revista “Playboy”, “o incesto é legal desde que seja mantido em família”.
Mas como manter a muralha da família (e dos compadrios) ao lado da liberdade do mercado e das gravações reveladoras da verdadeira máscara do invocador do Tribunal de Nuremberg e também das facções de ataque e defesa do governo, que são (com a devida vênia) contumazes potoqueiras? Por que — essa é a grande questão — o campo político virou um espaço de mentiras, malandragens e desenganos?
O abominável no comportamento de Jair Bolsonaro é que ele ainda não conseguiu entender a magnitude do papel de presidente da República. É claro que tudo tem a ver com a crença de que ele se pense, como disse com uma ingenuidade embaraçosa, como “imorrível, incomível e imbrochável”. Delas todas, eu invejo a mais humana, a última.
Como dizia o velho e querido brasilianista Richard Moneygrand, dificilmente se faz democracia com faraós.
Roberto Damatta - assinatura
Por Roberto DaMatta
quinta-feira, 10 de junho de 2021
amamentação compulsória e outras formas de escravização de mulheres e pessoas com útero no sistema tirano do patriarcado
E, é sempre bom lembrar de mulheres que não quiseram ou tiveram sérios problemas para amamentar. Afinal de contas, faz parte do discurso da violência simbólica misógina a amamentação compulsória. Por exemplo quando uma menina, ainda muito nova engravida, é obrigada a gestar, a parir, a amamentar...por causa do dispositivo materno (violência de gênero). Um sofrimento devastador e muito solitário invade essa menina. Da mesma forma, mulheres e pessoas com útero que são obrigadas (são um enésimo dado silenciado e amordaçado) a levar gestações - indesejadas e adoecedoras, talvez enlouquecedora - e ouvem uma voz social que naturaliza o aprisionamento das fêmeas que devem ser a fábrica da humanidade. Esse é um ponto que me toca porque minha irmã é mãe solo, de uma gravidez não planejada, amamenta até hoje (depois de já 3 anos do filho), sem poder trabalhar, sem poder ter sua autonomia legitimada e muitas vezes silenciadas em vozes que repetem " a mãe é sagrada", mas esquecem que somos compulsoriamente obrigadas a nos reproduzir em muitas situações de circunstâncias diversas. A amamentação é também um direito da criança conforme as prerrogativas de aleitamento como princípio de desenvolvimento saudável de pequenas gentes. E, mais uma vez, o discurso da maternidade compulsória e violenta se faz sem nem a declaração de direitos humanos perceber. Afinal, mulheres ou pessoas que possuem útero têm mesmo o direito de decidir? Somos iguais em "liberdade" e integridade do nosso corpo como qualquer um? Será que é assim? São indagações necessárias para um feminismo político e prático. A vida de mulheres e pessoas que possuem útero não deveria se resumir às consequências biológicas de gestar, parir e amamentar como se fossemos fêmeas, animalizadas, escravizadas pelo controle externo que o patriarcado retém sobre o nosso existir. Apesar de tudo isso, eu sou plenamente a favor da garantia dos direitos das pessoas que possuem útero de gestar, parir e amamentar se assim for minimamente para o seu próprio bem e da sua própria vontade. Mas eu acho que o que eu defendo anda utópico demais.
quarta-feira, 9 de junho de 2021
oxalá
Segundo os mitos, Oxalá permaneceu injustamente preso durante sete anos no reino de seu filho, Xangô, sem que este soubesse do fato. Grandes calamidades ocorreram em todo o reino devido a essa injustiça e quando Xangô finalmente descobriu o que havia acontecido com o próprio pai, resgatou-o da prisão e ordenou que fossem organizadas grandes festas em todo o reino, em sua homenagem.
A festividade conhecida hoje como Águas de Oxalá remonta a esse acontecimento. No entanto, Oxalá estava muito alquebrado, ferido e entristecido. Apesar de toda a atenção que recebeu, a única coisa que desejava era retornar ao seu próprio reino, em Ifé, onde Yemanjá, sua esposa, o aguardava. Xangô não podia acompanhá-lo pois precisava colocar em ordem o próprio reino e pediu a Airá que fizesse isso em seu lugar.
Foi assim que Airá tornou-se o companheiro de Oxalá, pois a viagem foi muito longa já que Oxalá andava muito devagar (conta-se também que Airá carregava Oxalá nas costas) pelo fato de ainda estar se recuperando dos ferimentos que adquirira durante os sete anos de prisão. Durante o dia, eles caminhavam. À noite, Oxalá sentia frio e precisava descansar. Para aquecê-lo e distraí-lo dos próprios pensamentos, Ayrá mandava que acendessem uma grande fogueira no acampamento. Oxalá observava o fogo e Ayrá passava longas horas contando-lhe histórias do povo de Oyó.
Desse modo, tornou-se tradição acender a fogueira no dia 29 de junho de cada ano (no Brasil), em homenagem a Airá e à viagem que fez em companhia de Oxalá.
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Áyrà ójó mó péré sé
Á mó péré sé
Áyrà ójó mó péré sé
Á mó péré sé
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A chuva de Airá apenas limpa e faz barulho como um tambor
Ela apenas limpa e faz barulho como um tambor
A chuva de Airá apenas limpa e faz barulho como um tambor
Ela apenas limpa e faz barulho como um tambor
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Amo o Candomblé
#Povodafloresta 🍃🌿
terça-feira, 8 de junho de 2021
planeta lixo
É sobre isso.
Não adianta mais dizer, como o pensador do século passado, o trabalhador "produz riqueza" por isso essa "riqueza" lhe pertence...
A lógica da propriedade não está fora desse lugar de "dono de fato de tudo que é produzido" porque O QUE É FABRICADO, camarada, É LIXO.
Incluindo o LIXO HUMANO. A humanidade dona, proprietária de lixo é a nossa nova era...
Que LIXO!
Não deveríamos mais "lutar para dominar os meios de produção", para poder "consumir", sabe...
Consumir, minhas companheiras...meus companheiros de mundo, É DESTRUIR, SUGAR TODA A VIDA, TORNAR TUDO O LIXO...o planeta lixo é o resultado...um iPhone tem, sem pecado nenhum, ALUMINA do solo sagrado DA AMAZÔNIA, banhado de morte e extinção...
Verdade...não só o iPhone que custa pouco perto da VIDA e do APAGAMENTO, do SILENCIAMENTO dos povos originários...
Estamos consumindo, classe produtora de lixo, DESTRUIÇÃO...
Romantização da pobreza ?
Não!
Ooooooooodio ao capitalismo, ao rastro de cemitérios, ao cheiro de sangue podre, ao veneno do chorume em nossas veias ...lençóis freáticos.
Ooooooodio à sociedade que pensa que consumir é algum poder...quando de fato é a própria morte em acelerado processo de produção...é voraz a mentalidade que aliena...engole tudo a sua volta e se chama NEOLIBERALISMO RADICAL ou necropolítica para os íntimos...
O século XXI exige outras ideias...que estão sendo ditas...estamos gritando. Mas o academicismo CLÁSSICO patriarcal e antiquado nos torna reféns do ontem em forma de reprodução...por certo, nenhum pensador no mundo gostaria de morrer com as mesmas palavras de sempre na boca.
Sempre pense o que seu filósofo, seu mestre preferido lhe diria agora...ou será que é você quem deveria dizer algo a ele sobre esses novos tempos...aliás...NOSSOS tempos.
quarta-feira, 19 de maio de 2021
Goza, burguesia do inferno! ou sobre o "direito" de gozar no liberalismo necropolítico radical dessa nossa era... vergonha
Que gozar e transar não são motivos RELEVANTES quando UMA PANDEMIA e um governo neofascista JÁ MATARAM juntos e aliançados...mais de 400 mil brasileiros. #ForaBol卐onaroGenocida #forasallescriminoso
#forabolsonaro
Obs. Não adianta me mandar transar, gozar...dá meu isso...meu aquilo...eu sou daquelas idiotas que NÃO SAI de casa PORQUE ATÉ PRIVILEGIADA sou... um privilégio VERGONHOSO no país que mais mata negros, lgbt, indígenas, mulheres e crianças...um país que EM MAIO LUTA PELO COMBATE ao abuso e à exploração sexual infantil... O que a PORNOGRAFIA escancara, incentiva e máscara. O que pornografia tem a ver com tudo isso? O liberalismo sexual fantasiado de "novidade"...tem cor, tem classe social e tem alvos, tem VÍTIMAS pois muitas são as mulheres que se tornam prostitutas, que não estão em nenhuma estatística de morte, fome, covid-19 ou violência de gênero.... então , goza, aí, CARALHO... goza...bando de burguês do inferno
sexta-feira, 30 de abril de 2021
Possível é. Pra mim a ética na nossa relação com os animais precisa ir muito além desse dilema "comer ou não comer carne".
Em geral, dietas com menos proteína animal podem ser bem mais saudáveis ou não. É possível não comer animais e, ainda assim, contribuir enormemente para a destruição dos ecossistemas (a soja, por exemplo, é um grande vilão). Há muitos alimentos originados de trabalho infantil e escravo. Há muitos outros comportamentos nocivos ao meio ambiente que são pouco falados (descarte e mesmo excreção de psicofármacos em rios que alteram o comportamento dos peixes e outros animais). Poderíamos até contabilizar o uso de eletricidade vinda de hidrelétricas que destroem muitos ecossistemas.
Enfim, pra mim, a lógica da REDUÇÃO no consumo, escolha consciente e outras iniciativas, de maneira geral, são mais interessantes do que focar apenas na lógica de "comer ou não" outros animais. E na verdade me irritam um pouco pela hipersimplificação (igual a onda de banir canudos). Nossa biologia inclui a alimentação com base em proteína animal, assim como a de muitos outros animais. O maior ponto de discussão, para mim, não deveria ser este. Até pq escolher não comer carne tbm passa por uma série de outras questões socioeconômicas.
Comentário sensatíssimo de Anna Carolina Ramos
quarta-feira, 28 de abril de 2021
Companheiros.
Concordo plenamente. Além disso, acho muito importante que seu posicionamento enquanto negro homem cis esteja sendo exposto porque a manutenção desse sistema de exploração e controle das sexualidades se dá por meio do patriarcado arraigado em nossa cultura, sendo os homens muitas vezes os que mais são privilegiados, embora estejam em certa medida sofrendo de uma compressão subjetiva (alienação da sua sexualidade também). Ouvir de um homem é importante porque entre pares, muitas vezes o discurso é de reforço, de estímulo e até policiamento. Ler o que teu lugar de negro militante manifesta é inquestionavelmente próprio, ético e orgânico - são essas as bandeiras que eu já te vi carregando -, então, muito obrigada por estar muitas vezes na trincheira com coragem de ser até agredido, de diversas formas. Uma das violências simbólicas mais destrutivas produzidas contra negras e negros a hipersexualização de seus corpos, o estupro moralizado pela desumanização das etnias africanas e a limitação das qualidades aos "atributos" de aparência que é um nojo praticado pela indústria cosmética e da medicina estética. Absurdos de um fascismo DESGRAÇADO que nos comanda pela necropolítica ou neoliberalismo radicalizado. Como és CISgênero essa pauta te coloca no fronte com todes que são explorades, OBJETIFICADOS feitos de produtos para a venda na prateleira do CONSUMO "afetivo" que destrói muitos sonhos, oportunidades e fecha as portas, colocando transgeres em uma classe INUMANA. O que é ANTES DE TUDO uma derrota para a humanidade. É um posicionamento francamente feminista assim como o meu. Não tenho nada a me opor. MUITO OBRIGADA pela sua manifestação. ♀️💜
terça-feira, 27 de abril de 2021
😔
Não foram as bruxas que queimaram.
Foram mulheres!
Mulheres que eram vistas como:
Muito bonitas,
Muito cultas e inteligentes,
Porque tinham água no poço, uma bela plantação (sim, sério),
Que tinham uma marca de nascença,
Mulheres que eram muito habilidosas com fitoterapia,
Muito altas,
Muito quietas,
Muito ruivas,
Mulheres que tinham uma forte conexão com a natureza,
Mulheres que dançavam,
Mulheres que cantavam,
ou qualquer outra coisa, realmente.
Qualquer mulher estava em risco de ser queimada nos anos 1600.
Mulheres eram jogadas na água e se podiam flutuar, eram culpadas e executadas. Se elas afundassem e se afogassem, eram inocentes.
Mulheres foram jogadas de penhascos.
As mulheres eram colocadas em buracos profundos no chão.
Por que escrevo isso?
Porque conhecer nossa história é importante quando estamos construindo um novo mundo.
Quando estamos fazendo o trabalho de cura de nossas linhagens e como mulheres.
Para dar voz às mulheres que foram massacradas, para dar-lhes reparação e uma chance de paz.
Não foram as bruxas que queimaram.
Foram mulheres...😔
Texto de Fia Forsström
pátria pútrida, burocrática, patriarcal: brasil da fome, do lado, da morte e do genocida
Essa informação é fato. E também absolutamente triste, porque conforme a produtividade em atividades remotas os alunos podem ficar SEM O VALOR de R$80,00 que recebem O QUE JÁ É DRAMÁTICO, honestamente.
Quando eu falo em desigualdade social na escola, eu estou apontando essa realidade de abismo entre escola e comunidade, porque dentro das próprias escolas A DESIGUALDADE ENTRE os indivíduos é um abismo. Por isso que mesmo o CANCELAMENTO do vale alimentação deveria ser REPENSADO.
Eu tenho vários relatos de pessoas (alunos) que tiveram ALIMENTAÇÃO na mesa por causa desse vale, o que do contrário seria FOME. Fome.
Outro ponto que concordo plenamente com sua fala, professor, é de que o cancelamento de matrículas pode sim prejudicar a vida escolar dos alunos - mas o que se está pensando de fato é no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) que tanto conta com as frequências, matrículas, evasão e retenção de alunos, quanto com as notas por meio do SAEB.
Sabemos que o SAEB traz ou tira RECURSOS das escolas por meio da redução de alunos, por exemplo.
Em meio a uma pandemia de fome, a um holocausto de injustas mortes, a uma letalidade revoltante de um VÍRUS com vacina pronta já em todo o mundo... o governo pode sim FAZER UMA GRANDE MERDA - perdão pela indignação que está expressa na palavra.
Não se pode pensar apenas pelo lado de conteúdo (produção teórica), nem pelo lado de referência, estatísticas de alunos e demais aspectos...
É OBRIGATÓRIO que se pense EM VIDAS, EM SAÚDE, EM COMIDA e, sem dúvida, por tudo isso EM EDUCAÇÃO de modo MUITO, MAS MUITO MESMO ALÉM DE CONTEÚDO.
Educação é também um exercício POLÍTICO contra o genocídio, a fome e o descaso com a humanidade da gente.
Por isso, é indispensável se pensar em MUITAS partes que compõem a ESCOLA PÚBLICA como lugar de educação como direito fundamental (humano) e constitucional. Perdão por todas as redundâncias, indispensáveis, para a clareza e a seriedade do que se trata.
Nenhum aluno SEM O VALE, deveria ser a meta máxima.
Nenhum trabalhador da escola sem a vacina, primordialmente, para que o ensino híbrido seja possível.
Nenhuma vida a menos, poderia ser a nossa maior luta nesse momento.
Quando a filosofia marxista se fundamenta na máxima "Trabalhadores do mundo uni-vos!", trabalhadores SOMOS TODOS NÓS MESMO quem não possui sequer um diploma na mão.
Somos nós o chão que deveria cuidado antes de TODO esse desmonte.
Eu sou plenamente CONTRA qualquer medida antidemocrática, anticonstitucional e desumana.
Minha ética feminista, educadora freireana e EMANCIPATÓRIA - porque sou a favor de medidas HUMANITÁRIAS para lutar na pandemia - me definem.
Obrigada pela sua contribuição.
Sou plenamente a favor da sua manifestação.
Professora Hilda Freitas
quarta-feira, 21 de abril de 2021
Escola NÃO é depósito de gente
Escola NÃO é depósito de gente.
Aluno não está na escola para "deixar os pais trabalharem em paz", enquanto outras pessoas CUIDAM e CRIAM seus filhos.
Educação INSTITUCIONAL, escolarização, NÃO É MERCADORIA que se COMPRA, CONSOME ou se GANHA de bônus em escolas.
Escola é um direito como vida, saúde, transporte, segurança e cultura. TODOS os direitos estão SUSPENSOS de forma instável desde que a "gripezinha" chegou no brasil e foi IGNORADA por um governo federal OMISSO.
Sabem por que as escolas públicas estão fechadas para aulas presenciais?
Porque ATÉ RESPIRAR e COMER está DIFÍCIL no país das porcarias, da corrupção, do presidente GENOCIDA, da família de milícias espalhadas em todas as esferas governamentais.
Se alguém acha que ENCHER escolas de alunos e abrir suas portas para atendimento normal é URGENTE, POR CERTO ainda não se percebeu O NÚMERO de PESSOAS PEDINDO COMIDA nas portas, implorando com fome por EMPREGO.
Essa situação está se prolongando porque NÃO HÁ GESTÃO FEDERAL, mas dinheiro SENDO ROUBADO e usado como se fosse a impunidade a ÚNICA certeza.
Não é a escola fechada que MATA TODO DIAS MAIS DE 3 MIL brasileiros.
Não foram profesores, diretores, coordenadores, porteiros, servidores técnicos, administrativos e operacionais que MATARAM INJUSTAMENTE quase 400 MIL brasileiros já.
Quem matou?
Quem destruiu seus empregos?
Quem faliu pequenos empresários?
Quem disse que vacina NÃO ERA SOLUÇÃO?
Quem MINIMIZOU o poder de MORTE de um VÍRUS letal NO MUNDO INTEIRO dizendo que aqui isso não aconteceria?
Deixem esse genocida PRESIDENTE e vejam mais entre nós CAIREM.
A culpa é do vagabundo que não aceitou acordos para VACINAR COM RAPIDEZ NOSSA GENTE desde o ano passado.
A culpa é do maldito que RI, que faz PIADA, que xinga A POPULAÇÃO destruída, que NÃO RESPEITA A NOSSA DOR, o nosso luto.
Antes de matarem mais pessoas, EXPULSSEM ESSE CRIMINOSO da cadeira mais importante do que resta de república FRACASSADA nesse país.
#ForaBol卐onaroGenocida
#ForaBolsonaro
#EleNao
#fascistasnãopassarão
#ForaBolsonaroeSuaQuadrilha
terça-feira, 20 de abril de 2021
sapiens, sensibilidade, ppercepção (?), humanidade... entre Hannah e Eichiman ...do humanismo ao fascismo radicalizado o continuum histórico da civilização democrática (?) em pedaços
Acho bem intrigante a visão incomum da Hannah Arendt ao descrever esse "elemento" humano em Eichiman que, por isso mesmo, está contido nela, tal como em qualquer outro, como eu ou você, por exemplo. No olhar dos que lerem abismados a análise que Arendt propôs, a visão da banalidade refletida - sim! Sim, os que acham que Arendt "perdoa" Eichiman ao lhe declarar humano apesar do nazismo dele, padecem do mesmo que ele. O fascismo nessa visão estarrecedora da filósofa é um estranhar a humanidade do outro a ponto de destruí-la ou invisiblizá-la, apagar a humanidade do outro. Desumanizar outrem. Um mecanismo impossível aos que sentem a humanidade em si e nos demais. Sensibilidade (sapiens), a substância TAMBÉM humana, comum a qualquer um de nós que transborda em Hannah diferencia a sua postura ética, política e histórica diante de Eichiman. Ela possui sensibilidade enquanto ele...fascismo.
domingo, 18 de abril de 2021
privilégio de estar em casa, vivo.
Ficar em casa não é uma escolha, infelizmente. Quando é uma decisão, mesmo assim pode ser compulsória...vemos tanto isso em relação às pessoas que precisam trabalhar fora de casa. Então, o nosso privilégio está nessa incapacidade de escolha, pois nós é proporcionado o ficar em casa, enquanto que não há esse direito para todos. Aqueles que têm minimamente o poder de decisão real de impacto coletivo permitem ou não permitem. É adoecedor viver em um país com a desigualdade social brutal que nos assaltou desde o golpe de 2016. É contínua e irreversível a construção da miséria de milhões de pessoas, a de milhares e a empobrecimento cruel da esmagadora maioria. Por tudo isso, é doloroso demais reconhecer esse privilégio, é frustrante saber ainda que não temos nem como mudar de modo abrupto, nem imediato esse caos. Nossa luta vai ser de formiguinhas, de andorinhas no incêndio. Porém, o que nos dá esperança é que em nós a coragem não falta, a generosidade não perde o brilho e a união é um instrumento progressivo de revolução. Estamos juntas com muitos companheiros que não perdem a certeza de que lutar vale a pena. Lutar vale a vida, vale o mundo. Lutar, esperançar e seguir, nossos verbos. NÃO RECUAREMOS. "É preciso estar atento e forte!"
sábado, 17 de abril de 2021
filosofia percepcional
SINTO, LOGO EXISTO: A FILOSOFIA ESTÉTICA DE MERLEAU-PONTY
Tradicionalmente, a filosofia ocidental considera a percepção como mera coadjuvante do conhecimento humano, em alguns casos, ela até atrapalha na busca da “verdade”. Cartesianamente, os sentidos seriam fontes do engano, do erro de avaliação, da ilusão sobre o dado empírico. É por isso que a cultura filosófica ocidental será direcionada para a atividade intelectual, cognitiva, racional, desprezando a percepção e a sensibilidade. Não é assim com Merleau-Ponty.
O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty nasceu em 1908 e faleceu em 1961. Ponty foi um homem da esquerda marxista francesa (que depois irá se afastar, incluindo uma briga com Sartre) e foi chamado de “existencialista cristão” (ele era católico). As suas reflexões são interessantíssimas para uma visão espiritual da vida, para a centralidade da experiência do corpo e para a arte.
Sua obra central é “A fenomenologia da percepção” onde “critica a psicologia clássica, a fisiologia mecanicista e o cogito racionalista de Descartes por meio do retorno ao fenômeno da percepção segundo a perspectiva fenomenológica. Para o filósofo, perceber não é uma pura sensação e nem tampouco um julgamento intelectual, mas a experiência de se dirigir, intencionalmente, ao mundo pelo corpo.”
Neste livrinho, escrito pelo psicanalista e filósofo brasileiro Iraquitan de Oliveira Caminha (“10 lições sobre Merleau-Ponty”. Petrópolis, RJ : Vozes, 2019), quero destacar alguns pontos que me parecem centrais:
1- Desinflar o ego cartesiano e retomar a postura do não-saber e do espanto diante do mundo. Diz Caminha:
“Para o pensador francês, há uma impossibilidade radical de o filósofo alcançar qualquer tipo de superação definitiva das contradições humanas. Ele deve sempre adotar a postura do não-saber.”
Não se trata de um elogio da ignorância, mas de compreender “o papel do filósofo” como aquele que deve “oscilar entre a ignorância e o saber”.
2- A filosofia é uma obra inacabada e não uma sistematização de verdade totais sobre o mundo. Para Ponty, “o incessante recomeçar da tarefa filosófica é a expressão de renúncia a toda cristalização do pensar num sistema acabado e fechado. Tal perspectiva de compreensão da Filosofia como inacabada é derivada da concepção de que o real é sempre percebido e que não há percepção sem mundo. A percepção é a experiência originária de se dirigir para o mundo, que renova constantemente o pensamento filosófico. Nesse sentido, a Filosofia é considerada, por Merleau- Ponty, como a perpétua experiência de reaprender a ver o mundo.”
3- O mundo é o que percebo e o que percebo é o mundo, portanto, cada sujeito vive dentro de uma experiência de mundo que lhe é peculiar, mas não fechada, nem incomunicável. Nessa perspectiva, “não devemos nos perguntar se nós percebemos realmente um mundo; devemos dizer ao contrário: o mundo é isto que nós percebemos” (MERLEAU-PONTY, 1992a, p. XI). A percepção nos dá, assim, um saber primordial que fundamenta para sempre nosso poder de reconhecer a existência do mundo como uma evidência de fato independentemente de esclarecimentos anteriores ou posteriores.”
Segundo Merleau-Ponty “o que é dado não é a coisa só, mas a experiência da coisa”. Sendo uma experiência — e não um dado objetivo, exterior e inquestionável — não podemos cair na ingenuidade de achar que a percepção é algo “puro”, “desinteressado”, “neutro”, “isento” ou não ideológico. Porque não existe experiência perceptiva pura, pois nossa percepção não é uma vivência desinteressada, pois “para que percebamos as coisas, precisamos “vivê-las”” e ao vivê-las ao deu a estas experiências as cores, os sabores, os sentimentos e os valores e as crenças que me habitam corporalmente.
4- E o que é o corpo para Merleau-Ponty?
Dito de forma simples e direta, o corpo é a nossa totalidade. Ponty tentará fugir do dualismo cartesiano que marca a nossa percepção de corpo como algo dividido (corpo e alma, matéria e espírito, corpo e consciência). Diz Caminha:
“Quando Merleau-Ponty se refere ao corpo próprio ou vivido, está bem claro que não é o corpo considerado de maneira totalmente objetiva, sempre visto como um dado em terceira pessoa, quer dizer, como um “ele é” coisificado (Körper). Isso significa que o corpo não é uma coisa material, de natureza inanimada, ou associada a uma consciência separada de uma vida sensível. O corpo próprio é, para Merleau-Ponty, uma existência indivisa que nós vivemos como uma vida que sempre nos pertence (Leib). Devemos notar que, quando Merleau-Ponty se refere ao corpo, enquanto percebido, ele o considera como fenomenal, cujo modo de ser para nós não passa pelo mundo objetivo considerado em si. O corpo que nós vivemos não é um objeto transparente, que se introduz em nosso campo de visão como um objeto exterior, mas, essencialmente, uma vida que assumimos como uma estrutura sempre presente em todas as nossas ações.”
5- E como este “eu-corpo” percebe o mundo?
“Segundo Merleau-Ponty, “a filosofia não é o reflexo de uma verdade prévia, mas, como a arte, a realização de uma verdade” (MERLEAU-PONTY, 1992a, p. XV). Não obstante, essa verdade encontra sempre nosso mundo, onde já há uma “razão preexistente”. Isso quer dizer que o único “logos que preexiste” é o próprio mundo. No fundo, a perspectiva filosófica de Merleau-Ponty é de mostrar que, de um lado, está certa a premissa de que para descobrir uma paisagem escondida atrás de uma colina, nosso olhar precisa encontrar um lugar que dê acesso ao aparecer de tal espetáculo, mas, de outro, é incontestável que essa paisagem não apareceria ao nosso olhar se já não estivesse presente no mundo percebido. Aquele que percebe não é uma consciência que ordena uma matéria sensível da qual ela possuiria a “lei ideal” das formas percebidas. Nesse sentido, a experiência perceptiva comporta, por princípio, a contradição da imanência e da transcendência. Portanto, a percepção é, ao mesmo tempo, vivida por aquele que vê e a expressão do mundo que se mostra. É por essa razão que Merleau-Ponty (1992a) afirma que o mundo é mais velho do que a consciência.”
Antes de nossa percepção de mundo, existe um mundo, um logos que é anterior a nós. A experiência da percepção não é algo objetivo e asséptico como no empirismo e nem é uma experiência universal e “desencarnada” conduzida pelo cogito, pelo intelecto humano. A experiência da percepção, deste eu-corpo, é um todo complexo, é uma experiência da verdade — e não a verdade em sentido absoluto —, é um encontro e, digo eu, uma construção social.
Ao perceber o mundo eu sinto, ao sentir sou afetado e afetado pelo que sinto e percebo do mundo, vivo uma experiência que é corporal e que envolve minhas intenções, meus desejos, não sendo eu mero objeto passivo. Somos então sujeitos de percepção. Caminha explica:
“Sentir não é, para Merleau-Ponty, apenas uma reação motora passiva aos estímulos do ambiente. É bem verdade que toda sensação é sempre de alguma coisa. Logo, só posso dizer que sinto o vermelho porque sou afetado por essa cor. Todavia, essa cor só se define como uma cor identificável por meio de uma série aberta de experiências possíveis operadas por um corpo que se faz sujeito no ato de sentir. Aquele que percebe é antes de tudo um ser de potência ou de possibilidades. Nasce aqui uma questão que é da ordem do uso do corpo, problema típico do mundo humano. Se fossemos máquinas que registram e decodificam informações sensíveis, não precisaríamos colocar o problema do sujeito da percepção.”
6- A carne como superação do dualismo cartesiano de corpo/mente.
Este é um dos alvos da filosofia de Merleau-Ponty. Desfazer-se de nosso passado dualista, mas o dualismo persiste. Ponty fala de um corpo que é físico e psíquico ou physis e psyque. De um eu-corpo que é natureza e cultura. Mas como manter isso unido?
É quando Merleau-Ponty desenvolve o conceito de carne — inspiração católica? — para falar em totalidade corpórea, experiência impossível de delimitar fornteiras dualistas, posto que physis e psyque (natureza e cultura, sujeito e objeto) são uma única coisa: carne.
“É pelo conceito de carne que Merleau-Ponty propõe superar a clivagem ou dicotomia sujeito/objeto, considerando a experiência originária do sentir. O filósofo adota um percurso filosófico cujo fim é uma reabilitação ontológica do sensível. Por esse caminho, ele renuncia os conceitos de sujeito e objeto como instâncias distintas. Nesse sentido, a filosofia de Merleau-Ponty não somente alcança o status de crítica, mas, sobretudo, se renova e permanece aberta. Com o conceito de carne podemos dizer que o corpo se liga ao mundo e o mundo se liga ao corpo de forma ininterrupta e antidualista. Nasce, assim, uma maneira de se pensar o corpo segundo a carne. É no Le visible et l’invisible que esse modo de pensar o sensível se realiza com todo o seu vigor. Com base nessa nova perspectiva filosófica, o corpo próprio ou o corpo-sujeito é concebido como “massa interiormente trabalhada”, que não estabelece uma fronteira nítida entre o dentro e o fora ou entre sujeito e objeto (MERLEAU-PONTY).”
7- A filosofia não pode se afastar do sensível, do sensório, da percepção. Só assim ela se manterá como atividade criativa e criadora.
“O imprevisível de uma percepção renovada nasce da certeza de que o ato de filosofar nunca pode se apartar do sensível. Talvez considerando o sensível em sua radicalidade como presença insuperável, possamos abrir novos caminhos que tragam ventos de esperança para renovar a Filosofia. “Ressensorializar” a atividade filosófica é o grande desafio de Merleau-Ponty. Tal desafio visa retirar o filosofar das repetições esquemáticas e colocá-lo no âmbito da ação criativa. No lugar de desapegar-se da percepção, o chamado aqui é para se deixar contagiar pela percepção.”
Concluindo, esta filosofia que valoriza e prioriza a percepção, o sentir humano, em detrimento de um processo histórico de hipervalorização do intelecto, do cognitivo e da razão, abre a filosofia ocidental para outros saberes como a arte, a literatura, as filosofias orientais, incluindo as experiências místicas e religiosas. É isso que, ao meu ver, faz da filosofia de Merleau-Ponty algo interessantíssimo e muito atual, mesmo não sendo a primeira formulação filosófica a fazer esse movimento de abertura para o sensível.
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Marcio Sales Saraiva é escrevinhador.
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